Satisfação. O que essa palavra significa para você? Para mim, significa dever cumprido. Muitas vezes na vida paramos ou interrompemos coisas e momentos que se perdem no tempo e ficam ali em algum canto esperando por nós, para que um dia possamos voltar e parar de onde começamos.
Foi assim com esse bordado que eu comecei a fazer há exatamente sete anos atrás. Ele fazia parte de um sonho de ver uma mesa bonita para um almoço de família especial e aos poucos foi ficando esquecido na minha mala de costura, protegido pelo plástico da umidade, da poeira e da ação do tempo, como uma memória distante, como um desejo interrompido.
Aos poucos o trabalho e a exaustão, tomaram conta da vida de tal forma que as pequenas coisas e até os sonhos, ficaram para trás dando lugar a outros objetivos e a dureza da vida, a realidade que nos é imposta e que de certa forma, deixamos que remodele nosso jeito de viver automaticamente e sem resistência, somos engolidos pelo cotidiano e nos perdemos na passagem do tempo que não perdoa.
Aprender a bordar foi uma conquista enorme, pois vivia em uma cidade pequena onde poucas pessoas dominavam essa arte e não queria repassar a terceiros que não fossem seus familiares. Quase não existiam revistas na época, tudo era complicado sem google e Youtube e olha que eu nem sou velha assim kkkkkkkkk
Tinha quinze anos e uma vontade louca de fazer algo que me desse alguma renda e também me proporcionasse um enxoval de noiva. Toda moça solteira, sonhava com esse enxoval com as iniciais dos noivos. Só as famílias de prestigio tinham esse mimo que muitas vezes era bordado em Diamantina.
Finalmente uma amiga da minha mãe, depois de muita insistência, resolveu me emprestar uma revista que tinha os gráficos do ponto cruz por alguns minutos. Como eu queria ter um celular naquele dia para fazer uma foto, mas tive que guardar na memória mesmo e quebrar a cabeça em casa até conseguir fazer o ponto certo. Tudo isso em segredo por que a tal amiga era
proibida pela mãe de ensinar. E assim, consegui fazer meu enxoval e faturar uma grana bordando para as amigas da minha mãe. Com o tempo aprendi a fazer vários tipos de bordado e também a costurar, mas o ponto cruz sempre foi meu preferido. Vivi assim, estudando e fazendo arte até os 20 anos. Com o tempo o bordado se perdeu em minha vida e tinha deixado de ser um prazer. Sofri um acidente em 2007 e sentia fortes dores no braço. Desisti de bordar.
A vontade de bordar ressurgiu em 2014, quando resolvi enfrentar a dor no braço e fazer mais fisioterapia. Aos poucos fui me arriscando por alguns minutos pegar na agulha e bordar. Até que me empolguei e comprei um tecido grande, para o tal forro de mesa especial e de novo as dores no braço e acontecimentos me fizeram abandonar o bordado…
Para redescobrir esse bordado e o prazer de voltar a bordar foram preciso sete anos e muitos acontecimentos, mudança de ambiente, de trabalho, de família, de comportamento e de sonhos, mas o principal foi voltar a essência de tudo, o prazer de viver e de fazer coisas que são realmente importantes para mim e para a minha vida.
Às vezes, só precisamos entender que, se hoje estamos passando por uma dificuldade, esse momento irá passar. Da mesma forma, momentos bons também passam. Na vida, tudo passa: tanto os momentos de privação quanto os de glória e á mudança é necessária para que a felicidade e a realização se tornem reais.
Lidar com a transitoriedade e a impermanência das coisas é fundamental para vencer na vida. Só assim você será capaz de compreender que não deve se desesperar em situações difíceis e que não pode deixar o seu ego assumir o controle em momentos de sucesso. Tudo é passageiro: diga isso para si diariamente. Não tenha dúvida que isso fará uma enorme diferença no seu dia a dia, mas saiba que por mais transformações que você passe pode parar e recomeçar.
Algumas vezes o bordado pode se perder no tempo, mas você pode comprar outro tecido, outras linhas e produzir. Se podemos fazer isso com o material imagina com nossos sonhos? Então, tire o seu bordado da gaveta.
